segunda-feira, 23 de maio de 2016

NÃO EXATAMENTE MAIS UMA CANÇÃO DE AMOR

Autor: G I L B E R T O   S A K U R A I | http://OMalditoEscritor.com

Ela sempre está gritando e quebrando coisas no apartamento da frente, e nesta noite tem algo a ver com o cachorro. Talvez ele tenha feito fezes no meio do corredor, e o marido acordou para mijar e acabou de pisar em cima. Não sei. Só sei que começa aquele deus nos acuda...

Cachorro pego pelo cangote e arremessado contra a parede da sala. Mulher levantando assustada com os ganidos do animal, e então vê seu bebê ofegante no chão com o narizinho sangrando, orelhas caídas e o terror em seus olhos imbecis. Esmurra a porta do banheiro, gritando:

Seu covarde filho da puta! Seu grandessíssimo filho da puta! você bateu nele de novo! Você tinha prometido que nunca mais ia bater nele! Seu covarde! Desgraçado!
Dali a pouco quebrando coisas na cozinha do pequeno apartamento presentes de casamento que ganharam dos amigos e parentes há apenas alguns meses atrás, antes de se mudarem. já não sobrou muita devido as outras brigas.

Acordo com a barulheira. Namorada acorda. E o cachorro dorme na caminha que eu coloco ao lado da cabeceira da cama. Se foi a época em que eu achava que era o mais louco do nosso andar.

Em outro dos apartamentos temos o cara que é sustentado pela mulher: ela sai para trabalhar e ele passa o dia todo gritando com as crianças... Ocasionalmente arrebentando a cara delas. Outro que dizem morar sozinho com os filhos, mas não dão um pio. Nunca escutei suas vozes. Talvez as crianças vivam acorrentados num quartinho, como animais de laboratório: de vez em quando ele vai lá e arranca um pedaço.

Quando termino o meu cigarro, a quebradeira acabou. Colo meu ouvido na porta e ainda ouço mais um pouco...

Ela batendo numa porta e chamando pelo marido — deve ser a do quarto de dormir, onde ele se trancou para não ter de lidar com isto. “Caio... Caio... Caio...”, sua voz soa quase inumana. Não sei se está bêbada ou se ele quebrou a boca dela.

Torno a me deitar. Ouço quando ela sai e chama o elevador, as unhas das patinhas do pequeno cachorro arranham o chão do corredor.

Algum tempo depois ela volta. Não ouço o cachorro. Brigo um pouco com o colchão comprado na época em que eu achava que o melhor colchão tinha que ser duro como uma porta. Penso que essa dor de cabeça permanente deva ser um tumor no meu cérebro. Penso em aproveitar as liquidações de final de mês no shopping. Penso que juntei grana o bastante para largar tudo para cima e viver uma vida humilde e cachaceira numa casinha nas montanhas com o meu cachorro até o dia de sua morte.

E então capoto no sono.  

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