segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

QUANDO EU ERA VIVA

 C | O | L | U | N | A | LORRAYNE SARAIVA |  lorsaraiva21@gmail.com

Quando eu era viva, existia cores e sons ao redor de tudo. 
Havia fumaça. E até mesmo na fumaça havia cor. 
Havia luz e batimentos cardíacos. E em cada batimento, se podia ouvir os acordes de minha música preferida.

Quando eu era viva, o limite era mal traçado. Ninguém sabia onde começava e até onde ia a permissão. Permissão de que? Para quê? 
Apenas a simples permissão de ser. Havia poesia em cada escolha. 
E cada escolha emanava sua própria moral.

Quando tudo era vivo, o céu tinha perfume. O sol era verde. 
E nada fazia sentido. Pois o maior sentido estava em não fazê-lo ou perseguí-lo. O sentido existia sem advogados. 
Sem perguntas e sem questões. 
Porque acreditar era muito melhor e mais real do que qualquer dúvida perene. E se deixar levar, era mais do que um direito... 
Era um instinto natural.

O ontem tornou-se o hoje, e vice-versa, de forma que o amanhã será sempre amanhã. Perdido e inatingível. Como em um horizonte ilusório. Uma mera ilusão que se estende até onde nosso braço não alcança. Que nos faz correr, suar, ansiar e desejar viver uma vida que flutua diante de nós. Que nos seduz, dissimuladamente, mas já qual sabemos estar comprometida com outro destino. Então temos que amargar naquele sorriso. Torcendo para que a vida se engane, e nos presenteie com nosso maior sonho. Mesmo que depois tudo se mostre um equívoco.

Quando você era vivo, você tinha cicatrizes. Várias. 
Por todo o corpo. E passava horas se admirando no espelho. 
Pensando que não importa o quanto cada uma delas doeu para ser feita. Você doía mais. Você pulsava mais. Mais do que qualquer dor latejante. Mais do que qualquer outro ser vivo.

Ser vivo. Sobre ser vivo. Não percebemos que estamos vivos. 
Não nos vemos vivos. 
Ouvimos apenas o ar entrando e saindo de nós. 
Nos restaurando e nos perdoando por qualquer erro passado. 
Continuar vivo é um jeito de Deus nos pedir perdão.

Quando eu era viva, eu perdoava. Mas sempre aos outros, nunca a mim mesma. Porque eu achava, eu julgava errado e era prepotente. Mas ingênua sobre o perdão. Eu era sabida para tantas coisas e engatinhava com dificuldade no longo caminho do perdão. 

Quando a vida era viva, ela era mais benevolente com si própria. Ela se permitia ser espasmo e dor, para que adiante fosse livre e bendita. Não recusava os pingos grossos de lágrimas - ou tempestades - cuja diferença nós nunca soubemos identificar. Mergulhava nessas águas. E antes de afogar-se, subia à superfície rindo. Um riso superior, quase desafiador, mas sobretudo, pronto a quase afogar-se de novo.

Pois a vida vive, no quase afogamento de todos os dias 
em que estamos vivos.

publicado na edição:
#ordinarialiteratura

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