sábado, 30 de janeiro de 2016

MINHA ALVA ALMA NEGRA

C | O | L | U | N | A |  MARIANE HELENASão Paulo - SP

“Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma, mudamente, acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.”
Cruz e Sousa.

Nos dias de hoje vemos os negros lutando por afirmação e reivindicando sua importância na sociedade. Cruz e Sousa foi, na minha visão, o maior poeta de todos os tempos da literatura brasileira. Seus versos ultrapassaram séculos, corações e tendências. Apesar disso, Cruz e Sousa também teve de enfrentar o preconceito, muito mais evidente na época. No entanto, esse fator nunca foi um desmotivador de sua obra, uma vez que o autor é conhecido como o mais importante escritor do Simbolismo no Brasil.

O Simbolismo foi um movimento artístico iniciado na França, no fim do século XIX, voltado para a exploração dos temas e espaços imaginários, relativos a cada criador e se confrontou com o realismo e naturalismo pela falta de compromisso com a lógica, a razão e as questões sociais. Chegou ao Brasil em 1893, com a publicação das obras Missal (prosa) e Broquéis (poesia), ambas de autoria de Cruz e Sousa, que o estabeleceram como escritor.

Cruz e Souza sempre foi conhecido por sua obsessão pela cor branca, pela morte, a transcendência espiritual, a integração cósmica, o mistério e o sagrado, o que, muitas vezes, levou a conclusões falsas a respeito de suas motivações.  Estudiosos ainda especulam sobre o fato da sua excessiva citação da cor branca ser uma forma de exacerbar o desejo de ser um homem branco. Com certeza, o fato de um negro, não mestiço, de descendência africana e pais escravos, ter se tornado num marco, numa das fases mais emblemáticas da nossa literatura, não poderia orgulhar-se da sua origem, pelo contrário, desejava excluir seu passado. Era um pensamento errôneo, mas vigente em sua realidade.

Porém, sua participação na luta pela causa abolicionista revela, em diversas passagens, um artista engajado e com uma postura de vencer a discriminação racial.

Antes de tentarmos qualquer conclusão, temos que ter em mente que, para o Dante Negro (como foi apelidado), o branco não funcionava como índice da negação da sua origem étnica. E a cor não aparece sozinha em seus poemas, mas ao lado de seu oposto, o preto. O que evidencia a abordagem da convivência dos contrários, que pode ser lida como o fio condutor do livro Broquéis (1893).

Indiscutivelmente, Cruz e Sousa, viveu essa duplicidade cromática. Sendo negro, teve toda uma formação cultural que era destinada única e exclusivamente à raça branca dominante. Então era natural que esta cultura e a sua sensibilidade étnica vivessem em conflito. E foi essa conjectura a responsável por uma interpretação racista e depreciativa à abordagem do autor. Um absurdo instalado em meados de 1900, mas que até hoje é muito vivo em quaisquer figuras negras em ascensão. A “piadinha”, o “burburinho” de que, "se fosse loira" ou "se fosse europeu" estampam mais uma frustrada tentativa de ofuscar talentos que ultrapassam a fronteira da cor, da raça, do berço, do gênero ou do intelectoE deflagram o racismo institucional vigente na nossa sociedade.

A palavra fala por si. Não precisamos reascender discussões e nem organizar argumentos. A história de luta e sobrevivência de João da Cruz é a mesma de milhares e milhares de outros Silvas, Antônios, Marias. E o triunfo de todos esses desafios cotidianos exalta ainda mais a força desse povo que, ainda que subjugado, brilha, se destaca e prevalece sobre a dor da descriminação e da marginalização que se arrasta por séculos. 

Mesmo assim, ninguém nunca obstruirá o talento nítido e nato de quem quer que seja. A força de vontade supera as negativas instituídas e dorme nos braços da esperança.
publicado na edição:
#ordinarialiteratura

Um comentário:

  1. "Mesmo assim, ninguém nunca obstruirá o talento nítido e nato de quem quer que seja. A força de vontade supera as negativas instituídas e dorme nos braços da esperança."

    Concordo plenamente.
    Antigamente o preconceito era bem claro, hoje é ofuscado, e muitas vezes pelo próprio negro. Há também o branco agredindo sua própria raça, isso é fato.

    Paulinho Dhi Andrade

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